Imagem, Í­cone, economia: As fontes bizantinas do imaginário contemporâneo

Capa por Aline Paiva e Andreia Resende

Capa por Aline Paiva e Andreia Resende a partir de ícones de Andrei Roublev

Apresentação do Livro de Marie-José Mondzain por Tadeu Capistrano:

“Nos séculos VIII e IX, em plena crise decorrente do iconoclasmo bizantino, a imagem se tornou uma problemática filosófica e política pela primeira vez na história ocidental. Numa violenta arena de disputas, entre seu culto e sua proibição, ela virou o cerne de uma questão passional.

Nesse período, a Igreja se viu obrigada a produzir um relato da situação teológica da imagem religiosa que, no entanto, não poderia levantar a mais leve suspeita de idolatria. A solução encontrada foi uma doutrina inspirada na configuração da imagem de Deus, natural e invisível, num ícone, artificial e visível, decalcado de Cristo. Essa “transfiguração” foi adaptada à realidade em carne viva dos aflitos seres humanos.

A partir dessa peculiar “encarnação” da imagem no corpus christi surgiu uma matriz icônica que seria capaz de definir toda uma cultura baseada na gestão simultânea do invisível e do visível. Uma complexa economia perfeitamente construída, que serviu de base para a estratégia política e pedagógica do poder temporal eclesiástico na administração das paixões de uma comunidade, sob a égide da divina providência.

Trata-se de um dispositivo de governo calcado na comunhão dos corpos e das almas em torno de uma instituição totalitária. Um império que se ergueu a partir de “visibilidades programáticas”, feitas para transmitir uma única mensagem. Essa imagética também serviu para sustentar as operações de “incorporação”: a imagem era absorvida como uma substância com a qual o fiel fascinado, ou “incorporado”, se identificava e se fundia, sem réplica e sem palavras. Esse conjunto de imagens construiu um reinado de dolorosas submissões, silenciamentos e impossibilidade de objeções.

Para analisar os processos que constituíram tal iconocracia, Marie-José Mondzain realiza um exame minucioso de textos antigos dos campos da filosofia e da teologia, tendo como leitura principal os Antirréticos, escritos entre 818 e 820 d.C por Nicéforo, um patriarca de Constantinopla que endereçou seu pensamento “à natureza de toda imagem e à impossibilidade de pensar e governar sem ela”.

A aposta deste surpreendente livro de Mondzain é revelar o modo pelo qual o imaginário contemporâneo — nossas maneiras de produzir e apreender as imagens — tem suas fontes na crise do iconoclasmo bizantino, propiciando uma percepção dos efeitos de continuidade e de ruptura na administração das visibilidades que atravessam as diversas corporações do visível no presente.”

Tadeu Capistrano

Marie-José Mondzain é filósofa e escritora. Diretora de pesquisa no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), sua obra é baseada em uma filosofia das imagens que abrange diferentes campos da visualidade. É autora dos vários livros, entre eles L’Image peut-elle tuer? (Bayard, 2002), Le Commerce des regards (Seuil, 2003), Homo spectator (Bayard, 2007) e De la Poursuite au cinéma et ailleurs (Bayard, 2011).

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