A minha pesquisa e a mobilidade – primeiras notas

Quando fui convidada para participar do Circuito Arte.Mov no Rio de Janeiro imaginei como poderia, hoje, me aproximar com a proposta da curadoria. A ideia inicial era que eu montasse algum trabalho com circuito de vigilância (em 2009 apresentei o Jogo dos 7 erros no Festival Arte.mov em BH). No entanto a instalação Tá tudo bem #5 ainda não está pronta e as Composições para Circuito de Vídeo Vigilância são complicadas de montar. As CCVVs foram uma série de performances que desenvolvi com o músico David Cole, e que consistiam em remixar, ao vivo, imagens de circuitos de video existentes, ou criados por nós, e oferecê-las ao público, acompanhadas de uma trilha editada também na hora, como uma experiência de Cinema ao Vivo a partir da video vigilancia. Experimentar as imagens captadas por circuitos de controle inserindo-as em circuitos de espetáculo, performance e cinema era uma forma de curto circuitar várias questões não só estéticas, mas políticas e sociais, e colocar a video vigilancia cotidiana em outro lugar. Pensar o acesso e o controle não só da circulação dos corpos pelos espaços, mas também o acesso e o controle sobre os bancos de imagens – quem vigia o vigia?

Esta pesquisa se desdobrou em um trabalho realizado em parceria com a coreógrafa Dani Lima, “Coreografia para prédios, pedestres e pombos”. Dani chegava com a pesquisa do gesto cotidiano, em que medida este gesto poderia ser entendido como performático, e eu com a pesquisa sobre o olhar vigilante – em que medida é o próprio olhar o que dota um acontecimento de significado e potência estética. Do cruzamento destas duas pesquisas nasceu o projeto.

Esta aproximação com a dança e com o teatro foi se intensificando em minhas práticas nos últimos anos. Quando Minelli entrou na caixa do Tá tudo bem #1 no Parque das Ruínas brincou, “ah, tá é teatro”. Tenho me interessado por estratégias de teatro e dança  que me ajudam a pensar a forma como a presença do corpo no espaço pode afetar a experiência com as imagens. Como convivem imagens e corpos? O cinema nos dá uma solução bem simples. Espectador imóvel, fileiras de cadeiras apontadas para a tela única. Venho do cinema, passo pela vigilância e chego no teatro. Então se fosse fazer uma aproximação de meu trabalho de hoje com a mobilidade seria pela mobilidade do espectador e do próprio filme. Em que medida a forma como o espectador entra na sala de projeção ou se posiciona com relação a tela, pode modificar aquilo que ele vê, pensando isto articulado com um banco de imagens que dá conta de um tema, um espaço, um tempo.

Tá tudo bem #1 , desenvolvida junto com Caito Mainier, é o primeiro resultado desta pesquisa. Uma caixa preta, onde algo acontece quando ninguém está olhando. As questões do acesso e da privacidade permanecem aqui, sobretudo neste primeiro banco de imagens que foi produzido a partir da proposta: o que você faz quando supõe estar protegido de olhares? Como reage se alguém o flagra? O circuito de vigilância está presente na construção da obra, não como produtor da imagem que é projetada ao público, mas como ferramenta que mapea o espaço de projeção informando a programação da movimentação dos espectadores.  O comportamento do sistema determina que a presença do espectador “inibe” o filme. Mas ao mesmo tempo, só há coisa vista se o olhar a produz. A caixa preta é um paradoxo.

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muita cousa
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