Prova ESDI – 18 de fevereiro de 2013

1. Introdução ao conceito de imagem

1.1 Etimologia da palavra e seus desdobramentos semânticos

1.2. Imagem capturada e imagem gerada.

1.1 Imagem, em português, vem do latim imago, que possui a mesma raiz de im-itar. A imagem, entendida assim, simplesmente em sua raiz latina, é o resultado de uma imitação, representação de algo que lhe é pré-existente. No entanto, sabemos que este ponto é problemático, e já Walter Benjamin analisa a natureza dialética da imagem, que sempre possuirá um valor em si mesma, além de referenciar um valor que está fora dela.

Quando remontamos à Grécia, lembramos que o aspecto da mimese foi altamente depreciado por Platão; a imagem de segunda ordem, entendida como ídolo ou ícone, seria um decaimento da imagem originária, ideia – eidos. Esta tríplice dimensão do conceito grego de imagem – ícone, ídolo ou ideia – aparece em alguma medida nas distinções do inglês picture e image, bem como no vocábulo alemão Bild, que pode significar  moldura, imagem ou forma, dependendo do contexto.  Colocar na moldura, é criar imagem. Para Martin Heidegger, uma imagem é o resultado de um fazer representacional, e o grande sintoma da modernidade seria a transformação do mundo em imagem. Vilém Flusser retoma o pensamento heideggeriano quando afirma que as imagens dotam o mundo de um caráter cênico e não estariam nos aproximando do mundo, mas ao contrário, nos afastando dele. Philippe Dubois propõe um história das modernas máquinas de visão que começa com o dispositivo da câmera escura, entendida como máquina de visualização. Passa a uma segunda geração de máquinas com a fotografia, máquina de visualização e registro. Chega a um terceiro estágio com o cinema, máquina de visualizar, registrar e reproduzir (acrescentando um tempo). A partir daí ganha um novo grau, o vídeo, que visualiza, registra e reproduz, acrescentando o tempo real. O quinto grau é a transmissão à distância, a virtualidade multiplicada da televisão, potência do vídeo. E por fim, as imagens de simulação e síntese. Estas não mais precisando ser entendidas em um sistema da verossimilhança ou referencialidade a um real. A máquina deixa de re-produzir para gerar a sua própria realidade, ou melhor dizendo a sua hiper-realidade.

A superação da imagem como representação, a tão propalada “crise da representação” é um problema abordado por diversos teóricos contemporâneos da imagem, notadamente por Deleuze no segundo tomo de sua obra sobre o cinema,  Imagem-Tempo.

Nas imagens técnicas, a ideia da representação está ligada ao  “isso foi” – ça a été barthesiano – e poderia nos levar a uma compreensão da imagem como prova, indício. Um valor que residiria nas suas potencialidades de copia, decalque, impressão e captura de realidade. Muitos documentaristas advogam em favor desta causa, o cinema direto com sua ideia de mosca na parede e todo o manifesto KinoGlass anunciam a chegada do cinema-verdade, que “liberta o olho da miopia humana”. Mas hoje já não é possível falar sem desconfiança dessa compreensão de imagem, que parece esquecer que toda imagem é produzida por um ponto de vista; não existe imagem sem ponto de vista, o ponto de vista é aquilo que, como diria Michel Foucault, permanece não visível e não oculto. Imagens são mediações, mas mediar também é esconder. O que a fenomenologia de Heidegger aponta já se problematizara com Henri Bergson em matéria e memória – meu corpo é uma imagem que sinto. A imagem aponta irremediavelmente para o seu produtor. Mais uma vez Vilém Flusser nos lembra: “Bilder verstellen was sie vorstellen” : as imagens, como biombos, escondem aquilo mesmo que se propõem a mostrar. De forma que, mesmo no paradigma da captura, da “janela para o mundo” ou “espelho do mundo”, estamos irremediavelmente contaminados com a geração e a produção de imagens que mostram o contra plano da janela, o outro lado do espelho, o sujeito observador. Impossível não lembrar da fábula de Michelangelo Antonioni, Blow up, onde o fotógrafo captura justamente o que não viu. Mas produzir imagens sem ponto de vista, como seria isso? A dessubjetivização do olhar seria possível? Nem mesmo para as câmeras de vigilância essa suposta neutralidade estaria assegurada, pois, como já nos ensina Panofsky, a própria câmera é uma forma simbólica. Não se pode pular a própria sombra. Uma compreensão sistêmica, estrutural, da imagem se faz necessária, ao contrario de uma explicação causal e linear.

1.2 Ao contrapor imagem capturada e imagem gerada não podemos abordar apenas um problema de ordem técnica, que poderia ser facilmente resolvido classificando captura como aquilo que se produz por meio de aparelhos, analógicos ou digitais, e registra o real; e a geração por meio de programas que simulam algo que, a priori não existe. Esta é a formula proposta por Dubois, que serve para fazer uma genealogia das máquinas de visão, mas não dá conta da questão. Ontologicamente, captura e geração são noções que se embaralham e trazem outros problemas, de ordem filosófica, que não são o que explica, mas justamente o que deve ser explicado. A saber: o que seja o real e se há a possibilidade de um real pré-existente.

Pensando tecnicamente, para os produtores de imagem, há uma clara diferença se  uma imagem é capturada, (live action) ou uma simulação computadorizada, fruto de cálculo programado.  No novo regime estético, como postula Jacques Rancière, as imagens da arte são operações que produzem uma distância, uma dessemelhança. Ou seja, um novo pensamento, que não toma a semelhança por base e que não tem somente na genealogia da técnica a sua explicação.

O historiador da arte Aby Warburg, propôs, com seu Atlas Mnemosyne, pensar as imagens da arte em suas interrelações com o mundo, a sociedade, as historia, as ciências e as técnicas. Uma imagem seria assim mais um conjunto de relações do que uma forma dada – ou como sugeriu Flusser um plano onde as coisas relacionam-se magicamente.

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