Sobre o Evento

A exposição “Evento”, individual da artista Mariana Manhães, ocupa uma das galerias térreas do Paço Imperial, no Rio de Janeiro, até o dia 16 de fevereiro.

Os trabalhos expostos incluem, além de uma série de desenhos, um grupo de esculturas que muitas vezes se interconectam e retroalimentam, através de uma rede de circuitos eletrônicos e tubos de pvc.

eventos

Projetores de vídeo, ventiladores, sacos plásticos e bolas de isopor se agenciam, em gambiarras improváveis que parecem movidas por imagens de objetos animados, que falam uma língua própria. O resultado é surpreendente.

Se, por um lado, chama a atenção, justamente, a engenhosidade da conexão entre elementos heterogêneos que comunicam-se entre si, resultando um sistema que nos remete inevitavelmente a imagem do organismo que pulsa e respira, por outro nota-se a ausência de algum modo de conexão com a respiração e o pulso do próprio visitante.

Pode-se permanecer um bom tempo na sala observando o comportamento intrigante das obras, sem no entanto penetrar, de fato, nesta rede de objetos.  Um organismo fechado?

Por diferenciação poderia dizer que me interessa também pensar a vídeo projeção em termos de imagem que cria um mundo, que cria um sistema, que cria um organismo, que faz mover e emociona. Mas, no meu caso, penso que é importante e decisivo que o espectador seja também interator, participador, agente. Não no sentido puro de disparador da engenhoca, mas no sentido de poder, de algum modo, “fazer corpo”, tornar-se parte, dialogar. De alguma forma, na exposição de Manhães, me senti voyeur da atividade da máquina, que estava ali, em seu solilóquio.

to be continued

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One Response to Sobre o Evento

  1. Interatividade tecnológica, para alguns teóricos, seria a interação da interação. Portanto uma interação potencializada pela máquina que virtualiza aquilo que há de virtual na experiência comum. Cria-se com isso um recorte da experiência dentro de outra experiência, o que me parece alinhado com o discurso de Tereza Cruz sobre a “penetração da estética pela técnica”. Quando se clama “Mas, no meu caso, penso que é importante e decisivo que o espectador seja também interator, participador, agente. Não no sentido puro de disparador da engenhoca, mas no sentido de poder, de algum modo, “fazer corpo”, tornar-se parte, dialogar”, reflito se existe de fato tal lugar fora do corpo engendrado pela obra e do diálogo com a mesma. Penso se toda obra só se dá na consciência desse corpo maior (sistêmico)que se resolve nas tensões da experiência, do e com o objeto, no tema, do observador, e o mais importante, ao meu ver, no ambiente (ecossistema). A interatividade pobre (com a engenhoca que dispara) me parece ser aquela que se resume a tal virtualização da interação, quando a interatividade de primeira ordem se vê tecnologizada em favor de uma experência que se quer controlada, mesmo que em busca de uma abertura. O problema parece estar centrado numa questão de foco e foco se alinha ao desejo. O controle do virtual nos permitiu jogar numa outra esfera, a das máquinas (Flusser nos alerta que é melhor que seja contra elas, criativamente). Um jogo inebriante. Há que se buscar linhas de fuga, perspectivar a máquina e a nós mesmos nesse próprio jogo (essa é ainda uma capacidade apenas humana, ou daqueles que possuem consciência (vantagem?). As máquinas se alimentam desse jogo (ironia/paradoxo) e se individuam. Daí perceber máquinas em seu solilóquio, máquinas que nasceram do desejo, do jogo, que vem extrapolando os pactos iniciais de serventia, que seduzem e nos conduzem nesse balé de invenção – quem inventa quem? O quanto de fato podemos nos considerar à parte desse processo híbrido em sua natureza? Será que um dialogo já não está em curso nos faltando no entanto nos abrir a tal possibilidade? A possibilidade inclusive do silêncio, da ausência de respostas que gritem aos sentidos? O diálogo com a máquina, em última instancia é o dialogo com nós mesmos, de maneira amplificada, hibridizada, humanizada, maquinizada. O diálogo que busca ultrapassar as barreiras impostas pela mesma linguagem que o engendrou –talvez daí a necessidade da arte como catalizador desse processo, como regra de um jogo cujas regras se constroem ao jogar (Bateson). Qual o papel da máquina nisso tudo? A máquina, assim como o outro é aquilo que nos permite a diferença, aquilo que faz emergir o intervalo, o espaço entre as letras onde tudo parece existir. Ou seja, tudo pode ser uma questão de foco.

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