Xamanismo

por Pedro de Niemeyer Cesarino (2009)

A mediação exercida pelos xamãs amazônicos tem mais a ver com uma certa diplomacia, uma forma de traduzir e de conectar os humanos viventes à multidão de espíritos, de almas de mortos e de animais que constituem as cosmologias indígenas.

Os xamãs, diplomatas ou tradutores, como diz a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, são os responsáveis pelo arriscado trânsito de almas para além dos corpos.

Não por acaso, alguns índios da Amazônia costumam dizer que o pajé “é como um rádio”.

O xamanismo – esta rede ou malha de conexões entre princípios anímicos que vivem por detrás dos corpos visíveis – é algo por princípio criativo e voltado para a alteridade. Exímios negociadores das multiplicidades sociais presentes desde os tempos míticos, os pajés sabem traduzir em seus próprios termos as novidades de nosso mundo. OsMaxakali são um emblema disso. Confinados em uma terra de Minas Gerais agora repleta de capim, privados da caça e do acesso à paisagem na qual outrora viviam, não deixaram entretanto de possuir uma intensa e fascinante produção ritual. Antenados, fizeram em certa festa um telefone celular de argila, utilizado para a comunicação com os espíritos das lontras3.

3. Imagens do filme Hemex e Xunin, Terra Indígena do Pradinho, 2005 (acervo de Rosângela de Tugny)

http://pib.socioambiental.org/pt/c/no-brasil-atual/modos-de-vida/xamanismo

A identidade dos humanos, vivos e mortos, das plantas, dos animais e dos espíritos é inteiramente relacional e, portanto, sujeita a mutações e metamorfoses segundo os pontos de vista adotados” (Descola, 2005: 29, tradução pessoal).

Tal qual a demonstração de Descola sobre a maior parte dos povos do mundo, os Tikmu’un não postulam uma disjunção entre os atributos humanos e aqueles dos demais entes que povoam o mundo. Tal aspecto fica evidente quando se analisa os yãmiyxop, termo composto do radical “yãmiy“, o qual pode ser traduzido como “espírito1” e do sufixo “xop”, usado para formar coletivo. Assim, a tradução literal desta expressão é “grupo de espíritos”, mas este termo é aplicado: a) na designação dos espíritos dos ancestrais humanos, dos animais e dos vegetais2, e mesmo de alguns entes e dispositivos provenientes do mundo colonial, como o avião, helicóptero e a cachaça, entre outros3; b) para fazer referência aos conjuntos desses espíritos, pois o pensamento Tikmun os reúnem em grupos; c) para mencionar as performances rituais e os cantos associados a estes entes.

http://www.scielo.org.ar/scielo.php?pid=S1851-16942011000200004&script=sci_arttext

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