Deviríndio

“Mas se o Brasil é mesmo o país do futuro, é porque ele é o país onde os índios ainda não acabaram, já que o que se costuma chamar de “futuro”, neste país, é cada vez mais parecido com o passado de outros países — com o passado das potências capitalistas dos séculos passados, as quais iniciam o século XXI em uma trajetória de nítida decadência, após terem tornado o planeta um lugar literalmente irrespirável (falo da catástrofe climática iniciada com a Revolução Industrial, mutação tecno-econômica entre cujas condições de possibilidade deve-se incluir a invasão e o saque da América, dois séculos e meio antes).”

“(…) ouviu por muito tempo, tenho certeza, o juízo depreciativo de que os Baré “não são mais índios” — que o Brasil abrigava povos que ainda eram índios “de verdade”, e povos que já não são mais índios, são uma espécie de índios em negativo (no sentido fotográfico do termo). Eles na verdade não são mais povos, pois passaram a integrar “o povo”. Atenção, porém, eles são “o povo brasileiro” mas não são exatamente não-índios. Eles não são mais índios sem serem por isso não-índios, isto é, brancos. Não são nada.”

“Se o mestiço como ideal pós-colonial é o do ente antropológico que não é nem índio
nem branco — mas é branco, porque a colônia tornada Estado-nação é um efeito da invasão europeia —, o anti-mestiço como ideal dos povos indígenas que se confrontam com a pressão modernizadora eurocêntrica é o do ente antropológico que é índio e branco ao mesmo tempo —
mas é índio, pois a teoria da transformação que está operando aqui é uma teoria indígena, não branca, uma teoria, justamente, que pressupõe a recusa do Um, do Estado que se constitui pela desconstituição dos povos sob sua totalização transcendente.”

“É possível “ser branco” à moda indígena, isto é, acionar os códigos culturais dominantes segundo as prioridades, objetivos e estratégias indígenas, e sobretudo, segundo a antropologia indígena, a teoria indígena (as teorias indígenas) da cultura, que pouco têm a ver com nossas teorias essencialistas da cultura.”

https://www.academia.edu/11951025/O_%C3%ADndio_em_devir_pref%C3%A1cio_ao_livro_Bar%C3%A9_povo_do_rio_

mas é índio,
pois a teoria da transformação que está operando aqui é uma teoria indígena, não branca, uma teoria, justamente, que pressupõe a recusa do Um, do Estado que se constitui pela desconstituição dos povos sob sua totalização transcendente

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muita cousa
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