Devir Animal

“Every morning the Scenopoeetes dentirostris, abird of the Australian rain forests, cuts leaves, makes them fall to the ground, and turns them overleaves so that the paler internal side contrasts with the earth. In this way it constructs a stage for itself like a readymade; and directly above, on a creeper or branch, which fluffing its feathers beneath its beak to reveal their yellow roots, it sings a complex song made up from its own notes and, at intervals, those of other birds that it imitates; it is a complete artist.”

« Nous autres humains sommes habitués à conduire péniblement notre vie d’un but à un autre ; nous sommes donc persuadés que les animaux vivent de la même façon. C’est une erreur fondamentale qui, jusqu’à présent, n’a cessé de conduire les recherches sur de fausses voies » (J. V. Uexküll, Mondes animaux et monde humain, Ed. Gonthier, Paris, 1956, p. 48).

abecedário deleuze

Se tento me dizer, vagamente, o que me toca em um animal, a primeira coisa é que todo animal tem um mundo. É curioso, pois muita gente, muitos humanos não têm mundo. Vivem a vida de
todo mundo, ou seja, de qualquer um, de qualquer coisa, os animais têm mundos. Um mundo animal, às vezes, é extraordinariamente restrito e é isso que emociona. Os animais reagem a muito pouca coisa. Há toda espécie de coisas…
(…)
CP: Daí sua relação animal-escrita. O escritor, para você, é, também, alguém que tem um
mundo?
GD: Não sei, porque há outros aspectos, não basta ter um mundo para ser um animal. O que
me fascina completamente são as questões de território e acho que Félix e eu criamos um
conceito que se pode dizer que é filosófico, com a idéia de território. Os animais de
território, há animais sem território, mas os animais de território são prodigiosos, porque
constituir um território, para mim, é quase o nascimento da arte. Quando vemos como um
animal marca seu território, todo mundo sabe, todo mundo invoca sempre… as histórias de
glândulas anais, de urina, com as quais eles marcam as fronteiras de seu território. O que
intervém na marcação é, também, uma série de posturas, por exemplo, se abaixar, se
levantar. Uma série de cores, os macacos, por exemplo, as cores das nádegas dos macacos,
que eles manifestam na fronteira do território… Cor, canto, postura, são as três
determinações da arte, quero dizer, a cor, as linhas, as posturas animais são, às vezes,
verdadeiras linhas. Cor, linha, canto. É a arte em estado puro. E, então, eu me digo, quando
eles saem de seu território ou quando voltam para ele, seu comportamento…
(…)
Precisamos, às vezes, inventar uma palavra bárbara para dar conta de uma noção com
pretensão nova. A noção com pretensão nova é que não há território sem um vetor de saída
do território e não há saída do território, ou seja, desterritorialização, sem, ao mesmo
tempo, um esforço para se reterritorializar em outra parte. Tudo isso acontece nos animais.
É isso que me fascina, todo o domínio dos signos. Os animais emitem signos, não param de
emitir signos, produzem signos no duplo sentido: reagem a signos, por exemplo, uma
aranha: tudo o que toca sua tela, ela reage a qualquer coisa, ela reage a signos. E eles
produzem signos, por exemplo, os famosos signos… Isso é um signo de lobo? É um lobo ou
outra coisa? Admiro muito quem sabe reconhecer, como os verdadeiros caçadores, não os
de sociedades de caça, mas os que sabem reconhecer o animal que passou por ali, aí eles
são animais, têm, com o animal, uma relação animal. É isso ter uma relação animal com o
animal. É formidável.
(…)
Não há literatura que não leve a linguagem a esse limite que separa o homem do animal. Deve-se estar nesse limite. Mesmo quando se faz filosofia. Fica-se no limite que separa o pensamento do não pensamento.Deve-se estar sempre no limite que o separa da animalidade, mas de modo que
não se fique separado dela. Há uma inumanidade própria ao corpo humano, e ao espírito
humano, há relações animais com o animal.

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muita cousa
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