Cemiterada

“En Europe occidentale, au xviiie siècle, les cimetières, alors installés au chevet des églises sont progressivement désaffectés. De nouveaux cimetières sont ouverts aux portes des villes ou des villages. Les épidémies de choléra et les mesures d’hygiène à leur encontre contribuent fortement à ce changement. D’autre part la progression des idées libérales renforcent ce mouvement.”

Em 22 de Outubro de 1836 foi inaugurado o Cemitério do Campo Santo, na cidade de Salvador. Até então os mortos da cidade eram sepultados nas igrejas, havendo mausoléus internos ou um pequeno cemitério anexo em terreno contíguo.
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7585 “Salvador, 25 de outubro de 1836: uma multidão pluriclassista e multiracial destrói o cemitério do Campo Santo. Inaugurado três dias antes, ele havia sido construído por uma empresa que obtivera do governo o monopólio dos enterros da cidade.

Até aquela data, as pessoas eram sepultadas nas igrejas, costume considerado essencial para a salvação das almas. A revolta contra o cemitério, denominada “Cemiterada”, foi feita por centenas de manifestantes em defesa de uma vida melhor no outro mundo.

Na luta, confrades de diversas agremiações religiosas brandiam estandartes e ostentavam hábitos coloridos, representando uma cultura funerária afeita ao espetáculo e refratária à medicalização da morte.

Vinte anos depois do levante, a epidemia de cólera, trazendo em seu rastro a experiência cotidiana dos corpos putrefatos, provocava alterações que as leis e autoridades, impondo o cemitério, não tinham sido capazes de desencadear.

A morte deixava de ser uma festa para se tornar uma ameaça terrível.”

Fonte: Em defesa dos mortos 

Interessante input para pensar os cemitérios em contraponto à heterotopia foucaultiana… propondo aparentemente o oposto do que postula o filósofo francês “Jusqu’au XVIIIe siècle, il était au cœur de la cité, disposé là, au milieu de la ville, tout à côté de l’église ; et, à vrai dire, on ne lui attachait aucune valeur solennelle.” (p.3, o grifo é meu)

No Brasil colonial e na Bahia o sepultamento ao lado da Igreja, ou mais precisamente em seu interior, era pelo contrário, fato ao qual se atribuía valor não apenas solene, mas social e político. Seguindo as tradições do catolicismo português, estar na Igreja era estar perto de Deus, era vincular a morte ao reino dos céus e manter os vivos perto dos mortos em um espaço sagrado, local de culto. Daí a origem da revolta contra a criação de espaços de sepultamento apartados das igrejas e monopolizados por associações privadas:

“A Cemiterada é um exemplo do conflito entre tradição e reforma, tão comum na formação do capitalismo e dos estados nacionais modernos. Mais especificamente, ela pode ser entendida à luz das mudanças de atitudes frente a morte e aos mortos, em parte do mundo católico, entre meados do século XVIII e meados do XIX, aproximadamente.” (REIS, 2006, p. 229)

Curioso que no entanto, para Foucault, entrar na heterotopia, seja submeter-se a um rito, a uma purificação, que é parte higiênica, parte religiosa. Sobre as complexidades e contradições do conceito, encontrei um bom post de 2010: “Certains textes invitent à la dérive mentale, au grignotage désordonné. Les Hétérotopies, conférence de Michel Foucault datant de 1966, fait clairement partie de cette catégorie.” – http://www.article11.info/?Des-espaces-autres-l-heterotopie

Ao final de sua conferência, Foucault faz a análise de uma colônia jesuíta no Paraguai que me deixou um tanto confusa. Não compreendi se ele estava sendo irônico, ao elogiar a colônia, se acreditava realmente no que dizia ou se era deboche… Procurei na web algo sobre e encontrei muito pouco:
http://foucault.info/pst/az-cf-71610-881446758 – comentário sobre heterotopia e estudos coloniais. o único local onde os termos apareceriam articulados seria na conferência de 1966.

https://books.google.de/books?id=VPu21CDNNYMC&lpg=PR3&pg=PR3&output=embed
Coletânea de artigos publicados por autores indianos, colo aqui a nota de pé de página que esclarece o meu desconforto de algum modo. O autor do artigo em questão é Satish Despande:
Screen Shot 2015-07-07 at 12.37.00

Para concluir, retomo um comentário sobre a Cemiterada encontrado em um blog:

“…segundo os registros, no dia 25 de outubro, uma multidão formada “por mais de mil pessoas, saiu em passeata do centro da cidade em direção ao campo santo, levando consigo “machados, alavancas e outros ferros”.

Aos gritos de “morra o cemitério”, derrubaram a maior parte do muro dianteiro do cemitério recém-inaugurado, demoliram quase toda a capela ali construída, e destruíram tudo mais que encontraram pela frente. Esse repúdio da população em 1836 ficou conhecido por “Cemiterada” e foi responsável diretamente pelo processo de desaceleração da reforma cemiteral no Brasil.”

REIS, João José. A Morte é uma Festa: Ritos Fúnebres e Revolta Popular no Brasil do Século XIX. São Paulo: Companhia Das Letras.1991

FOUCAULT, Michel Les Hétérotopies, France-Culture, 7 décembre 1966.

Gaspar, Maria Dulce ; Buarque, Angela ; Cordeiro, Jeanne ; Escorcio, Eliana

Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, Annual, 2007, Issue 17, p.169(21)

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muita cousa
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