Cinema é cachoeira, stream e torrent

Cinema é cachoeira, stream e torrent.
Quando Humberto Mauro em 1973 definiu: “cinema é cachoeira”, a noção de cinema em rede ainda não havia despontado no horizonte da realização de filmes. Se o sentido heraclítico da assertiva permanece (pois nunca assistimos ao mesmo filme, com o tempo muda o filme e mudamos nós, de forma análoga a uma torrente ou curso d’água), hoje o “dinamismo, a beleza e a continuidade eterna” não podem mais ser entendidos apenas como alegoria ou metáfora de uma potência da natureza.
Passado meio século, a declaração do realizador brasileiro adquire nova dimensão, na medida em que o curso d’água, stream, na tradução para o inglês, e a torrente, ou torrent, não são simplesmente figuras de linguagem, mas nomes que utilizamos para nos referirmos a modos de compartilhamento de imagens em rede, em práticas consideradas em muitos casos ilegais, na medida em que desafiam estruturas seculares de distribuição e exibição de filmes. Assim como a água, confirmando os piores pesadelos da ficção científica, torna-se um bem escasso em certas metrópoles, as “torneiras” dos torrents e streamings são reguladas.
O streaming, ou transmissão de mídias pela internet, em tempo real, define um processo através do qual mídias são reproduzidas à medida em que são transmitidas on-line. De forma distinta, os arquivos de torrent definem um tipo de compartilhamento de mídias no qual o usuário-espectador-interator descarrega dados remotos em seu terminal, podendo acessá-los, inclusive off-line, somente após o término do processo. Ambos têm em comum o fato de dependerem da largura da banda, da velocidade de conexão e da quantidade de usuários conectados às plataformas de distribuição de dados, constituindo-se como casos do que poderíamos definir como cinemas em rede, onde, em teoria, qualquer um com acesso a uma conexão pode se tornar um ponto de difusão e recepção, proporcionando fluxos de filmes multitudinários. Em teoria, pois, como sabemos, a regulação sobre o compartilhamento de imagens é um campo em disputa não somente técnica ou estética, mas judicial e criminal.
Na torrente de imagens que inunda continuamente a internet e no crescente fluxo de dados que se avolumam nos servidores da rede mundial de computadores, operações de montagem e justaposição ocorrem de formas automatizadas, mas não neutras. No modo como operam os mecanismos de busca e apreensão de imagens, a noção de filme assim como a de autoria passam por transformações profundas.
Propomos aqui uma investigação acerca do cinema de rede que aponta para os fluxos, buscando de que formas podem ser significativos, e como as imagens que daí emergem orientam leituras. São imagens para serem lidas, mais do que vistas, e neste cenário a autoria passa a ser compreendida como uma curadoria que coleta, armazena e processa dados, segundo um modelo cibernético onde prevalece menos a noção de uma filme realizado por um gênio criador e mais a ideia de uma máquina moderadora da atividade de compartilhamento produzido
coletivamente. Os paradigmas da identificação, do ilusionismo e da mimese não se aplicam neste novo regime. Trata-se de um modo de leitura das imagens por outras vias, onde nos auxiliam a arqueologia da mídia e a análise do discurso.
De maneira hegemônica o cinema deixou-se dominar pelo paradigma da verossimilhança, onde a característica fenomenológica da câmera plasmar o real colocaram-no como tributário da perspectiva renascentista. Neste modelo a sensibilidade do filme é medida em grãos de prata ou, mais recentemente, na quantidade de pixels do material sensível: 2K, 4K, 10K são as promessas do futuro do cinema. Mas porque o futuro do cinema deveria ser medido em termos de resolução? A quem, além da indústria que se alimenta da obsolescência programada da tecnologia, interessa este modelo?
Neste artigo analisaremos algumas experiências de criação audiovisual que utilizam o streaming e o torrent para pensar outros modelos de cinema, um meio que, como afirmou categoricamente Andre Bazin, ainda não foi inventado.
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acessado em 02/08/2014
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