notas

Causalidade e teoria quântica   –   Patrícia Kauark Leite

No âmbito das teorias científicas, não há nada que possamos identificar, segundo ele (cf. Russell, 1912-1913, p. 13-4), como causa ou efeito. Uma lei física nada mais é do que uma equação diferencial, que estabelece as relações funcionais entre os eventos, sem nenhuma direção temporal privilegiada.

Uma lei estatística mescla a rigorosa causalidade natural com o mero acaso, como se fossem dois componentes de uma espécie de resultante, que seria a própria lei estatística.

Para eliminar as anomalias que surgem quando se pretende extrapolar o uso do princípio de causalidade e o emprego de uma lógica bivalente, cuja validade se restringe ao domínio clássico, Reichenbach se vê obrigado a desenvolver uma lógica trivalente. Ao lado dos valores de verdadeiro e falso, é preciso considerar o valor de indeterminado. Só assim, segundo ele, seriam eliminadas as contradições resultantes do emprego de descrições contraditórias, como a corpuscular e a ondulatória, e incorporadas, nessa dimensão epistêmica, as relações de incerteza de Heisenberg e a interpretação probabilista da função de onda.

No caso específico da mecânica quântica, as relações de incerteza de Heisenberg estabelecem a impossibilidade de efetuar-se a medida simultânea da posição e da quantidade de movimento (cf. Heisenberg, 1983 [1927], p. 64). No entanto, essa impossibilidade não pode ser creditada ao princípio de causalidade. Tal como se passa na mecânica clássica, a função de onda quântica continua absolutamente determinada. Seu valor pode ser calculado segundo regras absolutamente precisas, seja através dos formalismos de Schrödinger, de Heisenberg ou de Dirac. Planck se vê na tarefa de restabelecer o determinismo estrito compatível com a existência do quantum de ação. Para ele (cf. Planck, 1963 [1936], p. 65), o determinismo que reina na teoria quântica é tão rigoroso quanto o da física clássica. Os cálculos é que são diferentes. O problema na nova imagem representativa do universo quântico reside na impossibilidade de fazer uma correspondência rigorosa e precisa entre a imagem física representativa do universo e o mundo sensível. Com isso, o ponto de partida assumido por Planck é mantido. Nesse sentido, Planck defende que a causalidade tal como foi definida “é perfeitamente compatível com a física moderna, embora sua necessidade não possa ser demonstrada nem a priori nem a posteriori” (Planck, 1963 [1936], p. 73). Não sendo nem falsa, nem verdadeira, ela é um dos mais fundamentais princípios heurísticos para indicar, como uma bússola, um caminho aos cientistas em meio à confusão dos eventos.

A impossibilidade de uma nítida separação entre o comportamento dos objetos e os meios de observação é uma consequência do princípio descoberto por Planck da existência de um quantum de ação.

Em seu ensaio de 1935, Hermann considera que a fonte maior dos mal-entendidos, quando se interpreta os resultados da física atômica, reside na identificação equivocada entre a causalidade e o determinismo (cf. Hermann, 1996 [1935], p. 97-9). Simbolizado pela ideia do demônio de Laplace, o determinismo pressupõe que passado e futuro encontram-se absolutamente determinados, se conhecemos a lei física e as condições iniciais do sistema. O determinismo é, assim, a expressão do princípio de previsibilidade pelo cálculo, o qual foi, sem dúvida, rejeitado pela teoria quântica, que impôs limites intransponíveis a toda previsão determinista.

Hermann procura, então, evidenciar como uma teoria de tipo indeterminista não exclui uma identificação post factum das causas de um resultado particular de medida. Ela propõe, para tanto, o conceito de “causalidade retroditiva” para dar conta do contexto da teoria quântica. Assim podemos sem contradição assumir uma teoria preditivamente indeterminista e retroditivamente causal.

A finalidade da investigação experimental e teórica é buscar, a princípio, causas variáveis para chegar, ao final, às causas invariáveis que explicam todo tipo de variação.

Em uma perspectiva kantiana, Helmholtz defende que a causalidade necessária não pertence à natureza, mas é uma condição de possibilidade de inteligibilidade da própria natureza (cf. Helmholtz, 1989 [1867], p. 591-2).

Para Cassirer (1956 [1937], p. 62-3), a lei causal, tal como definida por Helmholtz, é um princípio regulador do nosso pensamento e, como tal, em nada se assemelha à máxima pragmática, de inspiração laplaciana, segundo a qual “saber é prever”, adotada pelo positivismo contemporâneo.

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-31662012000100007

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