Assombrações de Yperoig

O litoral onde hoje situa-se a cidade de Ubatuba era povoado, antes da chegada dos portugueses, pelos índios Tupinambá. Os Tupinambás eram guerreiros que celebravam a vingança contra os inimigos em rituais antropofágicos, nos quais a carne dos inimigos era devorada como iguaria capaz de transmitir, aos que a ingeriam, a vitalidade do homem que era comido. Com isso fortalecia-se a tribo, somando-se à vida dos vivos a vida do morto tornada alimento. Eduardo Viveiros de Castro revela que a antropofagia ritual tupinambá era uma técnica de memória, entendida não como retorno à origem ou regresso ao passado, mas como motor rumo ao futuro, modo de instaurar novos horizontes. A partir do século XVI os europeus combateram as práticas antropofágicas, encorajando os Tupinambás a fazerem de seus prisioneiros escravos, ao invés de comê-los. Com a assinatura do Tratado de Paz de Iperoig e a aniquilação da quase totalidade dos Tupinambás no litoral norte paulista, os remanescentes misturaram-se a outros grupos étnicos, formando a população caiçara, que hoje povoa a cidade de Ubatuba.

“Assombrações de Yperoig” propõe uma instalação onde imagens de partes de corpos humanos são projetadas no vapor que emerge de um caldeirão de sopa, que ferve sobre uma fogueira armada na praia. A ideia é recriar a cena de um ritual antropofágico, mas em lugar de devorar pedaços de corpos, a proposta é degustar uma sopa, em cuja névoa fumegante projetam-se  imagens de corpos, invocando a memória ancestral da região e indagando sobre possibilidades de futuro para os povos indígenas do Brasil. No momento em que a questão indígena coloca-se no centro de disputas políticas estratégicas no Brasil contemporâneo, “Assombrações de Yperoig” apresenta-se como forma oportuna e simbólica de intervenção visual.

Imagens captadas no contexto de criação do espetáculo Philodendrus, de Cristina Moura

Imagens captadas no contexto de criação do espetáculo Philodendrus, de Cristina Moura

esquemaTupiPara desenvolver a proposta precisamos de dois projetores de 2.300 ansilumen DLP, posicionados de forma a criar um efeito de tridimensionalidade, conforma a figura ao lado. O espaço pensado para a proposta é ao ar livre, na praia, na areia. Necessitamos de autorização para acender uma fogueira na praia. Caso esteja chovendo no dia programado para a intervenção, precisamos de um espaço alternativo coberto, onde seja possível apagar a iluminação e ficar apenas com a luz do fogo e dos projetores. Pode ser uma cozinha rústica com fogão a lenha. Gostaríamos de envolver coletivos ligados à pesquisa com grupos indígenas na região, que desconhecemos. A proposta é trabalhar sobre a ancestralidade de uma tradição que não é mais praticada, é um trabalho que envolve a memória social da região. Esta intervenção está sendo desenvolvida no contexto da pesquisa de doutorado “Do Cine Vivo ao Cine Fantasma”, realizada na Escola de Belas Artes da UFRJ. A hipótese que está sendo investigada é de que o cinema pode ser pensado como uma forma de vida, que tem agência, que faz agir. Pensado assim, um ritual onde as imagens pudessem ser devoradas seria um ritual cinefágico. A idéia de vídeo cinefágico aparece em Phillipe Dubois, que apresenta o vídeo como sobrevida do cinema, além cinema. No caso de nossa proposta, a cinefagia é tomada não em um sentido figurado, mas literal: verdadeiro banquete de imagens.

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