Ritual Cinefágico

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
Tupi, or not tupi that is the question.

Oswald de Andrade

“Ritual Cinefágico” é uma proposta de intervenção urbana efêmera, que propõe recriar, poeticamente, a cena de um ritual antropofágico Tupinambá.

Dois projetores serão posicionados de forma a criar uma área de projeção com uma abertura de aproximadamente 180º, fazendo aparecer, em meio a matéria fugaz do vapor d’água, as imagens hipnotizantes de partes de corpos humanos. A cena é armada ao ar livre e à noite, nas areias da Praia do Flamengo, em local próximo a Foz do Rio Carioca, antigo território tupinambá conhecido por Uruçumirim.

Sobre uma pequena fogueira armada na areia será preparada uma sopa e os espectadores-participadores serão convidados a experimentar o prato enquanto assistem à projeção, fantasmagórica, que evapora-se com a fumaça que sai da panela. A performance, portanto, consiste na feitura do alimento, sua posterior degustação, ao passo que imagens são projetadas no vapor, criando um campo híbrido para a experiência estética.esquema

A proposta desdobra-se a partir desta ação performática, que acontecerá em data específica e será aberta à participação do público. O ritual será registrado em vídeo e o material, editado, será disponibilizado no site criado para o projeto, juntament
e com a publicação de todo processo de pesquisa e elaboração do trabalho. Além da performance, uma mesa de debate sobre cinema ritual e performatividade das imagens será organizada no Memorial Getúlio Vargas, contando com a presença de pesquisadoras do campo da antropologia e do audiovisual.urucumirim

Justificativa

Os Tupinambás são considerados antepassados das tribos tupis que habitavam o Brasil no século XVI, e chegaram a constituir uma população de mais de 100.000 indivíduos, ocupando um território vasto que ia do recôncavo baiano ao litoral paulista. Esta vídeo intervenção busca invocar a memória desta ancestralidade indígena, envolvendo os espectadores – participadores em um ritual cinefágico.

Os Tupinambás eram guerreiros que celebravam a vingança contra os inimigos em rituais antropofágicos, nos quais a carne dos inimigos era devorada como iguaria capaz de transmitir, aos que a ingeriam, a vitalidade do homem que era comido. Com isso fortalecia-se a tribo, somando-se à vida dos vivos a vida do morto tornada alimento. Manuela Carneiro da Cunha, antropóloga brasileira, revela que a antropofagia ritual tupinambá era uma técnica de memória, entendida não como retorno à origem ou regresso ao passado, mas como motor rumo ao futuro, como modo de instaurar novos horizontes.

CasparSchmalkalden_Tapuya_WomanNeste sistema mnemônico, as mulheres ocupavam lugar de destaque. Se aos homens cabiam as funções de guerra, às mulheres cabiam as funções reprodutivas; vingança e nova geração encontravam-se indissociavelmente conectados através da figura da mulher; seja a jovem oferecida como esposa ao prisioneiro que seria comido, seja a jovem que o guerreiro conquistava o direito de desposar pelo abate do inimigo.
Ao propor esta transcriação do ritual antropofágico em que mulheres desempenham o papel de intercessoras, artistas e/ou feiticeiras, também se deseja expandir o próprio conceito de ritual, evocando um imaginário feminino acerca dos saberes que regem o alimento, a cura, o cuidado e a própria feitiçaria.

A ação, que parte de uma pesquisa histórica e iconográfica, faz-se desde uma perspectiva crítica, que bebe na memória ancestral para indagar sobre o futuro da cultura tupi no país. No momento em que a questão indígena coloca-se no centro de disputas políticas estratégicas no Brasil contemporâneo, “Ritual Cinefágico” apresenta-se como forma oportuna e simbólica de intervenção visual.

Ao apresentar um projeto de performance e intervenção que acontece fora do espaço institucional do museu ou da galeria, ocupando o espaço público da praia – ícone da paisagem carioca por excelência – estamos ampliando as possibilidades de público e os limites da própria arte. Ressignificar o espaço público e contextualizá-lo historicamente é um dos objetivos do projeto, a exemplo de outras intervenções públicas já realizadas pela proponente, como “Cine Fantasma” (2013) e “Coreografia para Prédios Pedestres e Pombos” (2010), projetos que obtiveram grande repercussão, nas redes e na rua.

Abaixo, imagem do Ritual Cinefágico realizado em Ubatuba: (link para detalhes do projeto aqui)

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